VOLTA AO MUNDO COM FRANCISCO SANDE E CASTRO

VOLTA AO MUNDO COM FRANCISCO SANDE E CASTRO

 

 

Em Quito fiquei duas noites. No primeiro dia peguei na moto e fui visitar a parte antiga da cidade, onde estão as principais catedrais que, à semelhança do que tinha visto no México e América Central, exibem o fascínio que os espanhóis tentaram introduzir na cabeça dos povos colonizados, através da religião. A Catedral de Jesus, com talha trabalhada a preencher quase todo o interior, forrado a folha de ouro, levou 160 anos a ser construída. Por aí se pode ter uma ideia da grandiosidade da obra. Impressionante.

Para variar das refeições locais fui almoçar uns "gnoqui" a um restaurante italiano recomendado pelo “Lonely Planet” e da parte da tarde fui visitar a casa Museu e ao que o artista chamou “a Capela” do pintor Equatoriano Oswaldo Guayasamín. Interessantíssimo. A guia era optima ao fazer-nos perceber a obra do artista, que se foca muito nas pessoas que sofrem como os antigos escravos ou quem vive na miséria mas também nas injustiças da nossa sociedade.
Guayasamín teve sucesso desde novo, graças a uma visita que Rockfeller fez, nos anos 40, a Quito, encantando-se com a obra do jovem pintor, tendo levado alguns quadros para os Estados Unidos e mais tarde lançado o artista naquele país.
Antes de morrer Guayasamín reuniu os sete filhos e disse-lhes que iria deixar a casa/atelier onde viveu os últimos vinte anos de vida ao estado Equatoriano para que aí fosse criado este fantástico museu. Numa das paredes uma frase gravada pelo artista:
“Eu chorava porque não tinha sapatos, até encontrar um miúdo que não tinha pés”.
Na manhã seguinte deixei Quito a caminho da costa mas antes tentei visitar o vulcão mais famoso do Equador e um dos mais altos, uns 80 Km a Sul da capital. O Cotopaxi mede quase seis mil metros e tem um glaciar no topo que, segundo os locais, tem vindo a perder gelo de ano para ano em mais uma prova do aquecimento global.
Acabei por não subir o vulcão porque não deixam entrar motos no parque e portanto teria que ir com um guia num carro até ao estacionamento superior para depois fazer uma caminhada de três horas, a mais de cinco mil metros de altitude até ao glaciar. Se estivesse bom tempo até tinha aceite a ideia mas o tempo estava enublado e ameaçava mesmo chover de maneira que desisti da ideia.
Continuei então o meu caminho rumo a Ocidente e à costa do Pacífico. Pouco tempo depois entrei numa serra que me deu imenso gozo subir, com curvas e contracurvas ao longo de muitos quilómetros em optimo piso. Aquele lado da serra, assim como a paisagem à volta de Quito, é seco e castanho mas, quando chegamos ao topo verificamos que a paisagem do outro lado é completamente diferente, de densa selva muito verde. Quase a três mil metros de altitude podia ver nuvens uns 500 metros abaixo de mim a cobrirem uma parte deste lado da serra cheio de vegetação. Comecei a descer e, ao entrar nessas nuvens, uma espécie de nevoeiro cerrado, a visibilidade ficou reduzida a menos de dez metros e, sem chover, a estrada estava encharcada. Tive que ir muito devagar, com enorme cuidado quando tinha que ultrapassar camionetas por não conseguir ver o que vinha em sentido contrário, se uma curva apertada ou um carro ou camião. A descida pareceu-me interminável, tendo rodado assim cerca de uma hora. Por fim passei para a parte de baixo das nuvens e pude apreciar a fantástica paisagem até ver uma cascata com um restaurante em baixo onde parei para almoçar a apreciar a fantástica paisagem daquelas quedas de água a correrem para piscinas naturais cavadas nas rochas. Fui recebido por um Eslovaco, que ali vivia e trabalhava há 12 anos e me apresentou o casal dono do local. Não havia mais cliente algum e a senhora preparou-me um excelente frango com batatas fritas verdadeiras e banana frita. Foi das melhores refeições que tive no Equador e, acompanhada de suco de cana de açucar expremido na hora, custou-me três dólares.

 

La Mitad del Mondo - Ecuador


Ao entrar no Ecuador, antes de apanhar a estrada principal que me levaria a Quito, fui almoçar, que eram três e meia da tarde e estava cheio de fome depois dos atrasos na fronteira, e resolvi ir visitar o cemitério de Tulcan a cidade junto à fronteira, porque um velho motard Argentino que encontrei tinha-me dito que valia a pena visitar esse cemitério onde os arbustos estão habilmente recortados em diferentes formas que representam animais ou distintas esculturas. Muito original.
Entretanto já passava das quatro da tarde de maneira que rodei mais uma hora e, ao chegar a uma cidade com um lago e Hoteis junto decidi por ali ficar. O sítio era muito giro, com vulcões extintos do outro lado do lago. No Ecuador, sendo um país pequeno, há 25 vulcões, sem contar com os da ilha de Galápagos
No dia seguinte decidi procurar na cidade uma oficina de motos onde pudesse fazer dois arranjos. Um era um dos parafusos que seguram a parte de trás do quadro e que tinha substituído no Mexico mas por uns de baixa qualidade. Andava há dias a sentir que a moto não estava a curvar tão bem como o habitual e esta manhã, quando a olhei por trás, reparei que o guarda lama estava desviado para um lado. Um dos parafusos tinha voltado a partir-se. O outro problema era uma fuga de gasolina junto ao depósito, desde que desmontei a bomba nos Estados Unidos, que ainda não consegui resolver.
Encontrei uma oficina de dois simpáticos rapazes que trataram de substituir os dois parafusos que estavam um partido e o outro quase, por uns de qualidade superior enquanto eu tratei da fuga de gasolina, obrigando-me a desmontar carenagens e tirar o depósito fora. Foi obra para quase três horas. 
No caminho para Sul parei para almoçar na cidade de Otavalo e o simpático dono de restaurante, depois de estar à conversa comigo, ofereceu-me a refeição.
Desci depois até Quito mas, já perto da cidade, fui ainda visitar dois marcos importantes onde está registada a linha imaginária do Equador naquele local.
O primeiro, mais básico, é um relógio de Sol num descampado junto à estrada montado em cima de pedras com círculos marcados que definem a hora através da sombra deste enorme tubo metálico, sendo o meio dia a altura em que o tubo não provoca qualquer sombra.
O rapaz que me mostrou este enorme relógio de Sol falou-me numa coisa interessante que só há pouco tempo tinha lido algures e refere-se ao facto de nós erradamente definirmos o Polo Norte como estando na parte de cima da terra e o Polo Sul na parte de baixo quando, na realidade, a terra em relação ao Universo não tem parte de cima ou de baixo definidas. Eles ali exibiam um mapa mundo projectado transversalmente em relação ao que estamos habituados que, segundo eles, é como deveria ser mostrada a terra em projecção.
Há pouco tempo li que quando um astronauta enviou recentemente uma fotografia da terra, no centro da Nasa viraram a fotografia de modo que o Polo Norte ficasse para cima, para não confundir as pessoas mas na prática não há razão para ser assim.
Este local do Relógio de Sol tem uma placa, colocada por astrónomos americanos há quatro meses atrás, a definirem um ponto exacto onde passa o equador.
O mesmo não se passa no segundo sítio que visitei e que é mais famoso. É uma vila que se chama La Mitad del Mundo e tem um monumento e uma linha marcada no chão onde supostamente passa o Ecuador, dividindo o mundo em dois.
Em Quito instalei-me no simpático Hotel recomendado pelo meu amigo equatoriano que tinha encontrado a primeira vez em Ipiales e, por coincidência, mais duas vezes, uma na própria fronteira no dia seguinte de manhã e outra na oficina, junto à estrada principal, onde reparei a moto.